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Vendendo a casa para pagar o IPTU E-mail
Por Rodrigo Alves de Carvalho   
22 de March de 2010
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- Meu Deus do Céu! Vai aumentar mil por cento! Tô perdido! Misericórdia!
Seu Joaquim com as mãos na cabeça andava de um lado a outro no pequeno espaço entre o balcão e o freezer no boteco do Seu Antônio do Bar.Acabara de ouvir de uns pingaiadas no final daquela tarde que o prefeito iria aumentar o valor do IPTU em até 1000%.- Como é que eu faço? Labuto tanto para conseguir pagar a conta da luz e da água e agora essa cacetada!
Os pingaiadas também achavam um absurdo e ao verem o coitado do Seu Joaquim desesperado, pareciam doutores eloqüentes.
- Mil por cento é aumento que não acaba mais. Quem pagava cem, vai pagar mais de mil, quem pagava duzentos, vai pagar mais de dois mil.
Seu Joaquim sai do bar transtornado, nem conseguiu tomar suas oito doses habituais de cachaça, tomou apenas seis.
Ao chegar em casa, comunicou a tragédia à sua mulher Ana, que cosia umas meias furadas.
- Mulher. Estamos lascados! Vamos ter que vender a casa para pagar o IPTU!
A mulher arregalou os olhos e ficou assustada, não tanto por seu marido, pois sabia que para qualquer probleminha que fosse arrumava pêlo em ovo, mas pelo fato de ter dito em vender a casa, que era o único bem que possuíam.
Após a morte de seu único irmão, há quatro anos e pelo falecido não possuir mais nem um parente, Joaquim acabou herdando a casa, ou melhor, uma meia água de três cômodos no fundo de um pequeno terreno próximo ao cemitério da cidade.
Nesses quatro anos, Joaquim, que era pipoqueiro e também carpia quintais, sempre pensou em ampliar a casinha ou pelo menos erguer o sonhado muro para que as vacas de um sitiozinho visinho não comessem suas alfaces.
Porém, agora seu Joaquim via os sonhos por terra, pois teria que vender a casa para pagar o IPTU.
- A casa não vale nada, mas o terreno vai dar para pagar o imposto.
Seu Joaquim fazia as contas, olhava o carnê do ano anterior e multiplicava os valores, prospectando quanto iria pagar naquele ano.
Sua esposa apenas observava e cosia, dentro de si pensava. Se forem vender a casa, onde iriam morar? Conseguiram aquela pela desgraça do cunhado que acabou morrendo amassado em baixo de uma laje mal feita na construção onde trabalhava.
Num relance, Seu Joaquim da um pequeno sorriso. Automaticamente sua esposa também sorri, porque sabia que o marido pensara em alguma coisa para saírem daquela situação e como todas as outras vezes, por mais que a situação piorasse com suas decisões, sua esposa sempre aceitava. Aceitava e cosia.
- Vendemos a casa, pagamos o IPTU e sobra um dinheirinho para comprarmos a Kombi velha do Adamastor, poderemos morar nela e ao mesmo tempo posso embutir meu carrinho de pipocas. Desse jeito poderemos levar nossa casa aos eventos e festas da cidade e vender pipoca.
Seu Joaquim estava esfuziante.
Sua esposa também, só franziu a testa quando lembrou que a Kombi do Adamastor era uma velharia caindo aos pedaços.
Casa vendida, IPTU pago (e não era tanto assim, para falar a verdade o carnê chegou com o mesmo valor do ano anterior, mas era tarde e Joaquim nem reclamou. Estava contente com a casa nova na Kombi da Pipoca).
Naquela tarde no Boteco do Antônio do Bar, Seu Joaquim tem outra crise de desespero quando os amigos pingaiadas comentam que o governo iria aumentar e muito o valor do IPVA.



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