- Se eu ganhasse cinco quilos já estaria bom!
Alberto apertava os ossos de sua costela em frente ao espelho enquanto pensava que alguns quilos poderiam esconder a quantidade de ossos que saltavam de seu corpo, principalmente quando aspirava o ar com toda força de seu pulmão.
Estava com 20 anos, e para maior desespero, era muito alto, tinha um pouco mais de um metro e noventa, mas nunca conseguiu chegar aos setenta quilos.
Tentou vários métodos que os amigos lhe aconselharam como tomar dois litros de leite por dia (o que lhe causou uma diarréia que fez emagrecer ainda mais), comeu três barras grandes de chocolate (e a diarréia lhe atacou novamente, sem contar que seu rosto pareceu um chuchu de tanta espinha), tomou inúmeros abridores de apetite, vitaminas, supercalóricos etc, mas quando subia na balança: sessenta e oito quilos.
Seu complexo aumentava ainda mais, ao ver seus amigos, altos ou baixos com o peso na medida certa, alguns mais gordinhos que outros, porém, o pior de tudo e o que mais acabava com a estima de Alberto, era ver que todos tinham ou tiveram um namorico, uma ficada ou até alguma paquera pendente.
- E o magrelo nunca deu um beijo em sua vida. Vinte anos e nem um selinho sequer...
Quase não saia de casa, após terminar o colegial arrumou um emprego noturno em uma confecção. Preferia o horário noturno pois quase ninguém via andando pelas ruas na ida ou na volta do trabalho.
Os poucos amigos de infância sempre tentavam levar Alberto para as baladas, mas a timidez e os complexos do rapaz o impedia.
- Alberto já é tímido e fica enclausurado em casa, por isso não arruma mulher.
Seu pai estava desempregado havia quase um ano, talvez até pelo fato de
não ser muito chegado ao trabalho, preferia o balcão de botecos
torrando o dinheiro que pegava da mulher que fazia pães e bolos para
uma padaria da cidade. Com isso, o que Alberto ganhava na confecção era
a quantia exata para pagar as contas da casa e a despesa no mercado.
Mas para quem não saia de casa e tampouco se importava para bens
materiais, estava bom.
Para Alberto bastava sua televisão de 14 polegadas em seu quarto e o
radinho que ficava ligado a manhã toda enquanto dormia após voltar do
trabalho.
De vez em quando seu primo Murilo aparecia para conversar com Alberto.
Murilo era muito parecido com ele, um ano mais novo e todos achavam que
os dois eram irmãos, pelo fato de Murilo também ser alto, magro e com
os mesmos traços faciais que Alberto.
Porém, a grande diferença entre os dois era que Murilo gostava de
farras e mulheres. Conhecia as baladas de toda a região e de tempos em
tempos estava com uma namoradinha diferente.
Alberto sempre teve uma admiração pelo primo. Mas no fundo, era
inevitável aquela doída ponta de ciúmes. Afinal de contas, o torturante
pensamento de um simples beijo em qualquer menina que fosse não lhe
saia da cabeça.
- Como pode meu primo pegar a mulher que quer? Sinceramente ele não é
tão bonito assim! Acho que beleza por beleza sou mais bonito que ele!
Alberto passou um tempo tentando compreender como Murilo conseguia suas namoradas se também era magrelo como ele.
- A lábia! Meu primo tem lábia, tem amigos que tem amigas, tem dinheiro... tem carro! Tem carro!
Era obvio para Alberto, Murilo dirigia desde os 15 anos e desde que
aprendera a dirigir sempre teve bons carros, carros de seu pai, é
claro, mas raramente Murilo saia de casa a pé.
- Mulher gosta de homem que tem carro!
Esse foi o pensamento que encravou na cabeça de Alberto de tal forma que o rapaz se transformou completamente.
Precisava conseguir um carro, entretanto, era mais fácil ficar obeso do que ter dinheiro para comprar um automóvel.
Teria que ser um bom carro, não precisava ser zero quilometro, mas
também não queria uma velharia. Fez as contas e mesmo se começasse a
guardar os trocados que lhe sobravam de seu salário, conseguiria
comprar um carro dali uns 15 anos mais ou menos.
Precisava haver outro jeito de conseguir um carro o mais rápido possível, mas como?
Um novo emprego estava fora de questão, só o que sabia fazer era tomar
conta de uma máquina retilínea, empréstimo não daria certo, porque
ninguém emprestaria dinheiro para um assalariado e sem bens.
O desejo de conseguir um carro o consumia dia e noite.
Havia um modo de adquirir o dinheiro suficiente, mas ia contra todos os
seus princípios, mas o que esperar de uma pessoa sem estima alguma,
desesperada para sair de seu poço e se realizar pessoalmente, deixando
para trás todos os traumas e complexos?
Foi voltando de seu trabalho por volta das 4 horas da manhã , ao passar
em frente a loja de seu patrão (a loja era separada da confecção e
ficava a duas quadras de sua casa), Alberto parou, observou e a partir
daquele momento começou a arquitetar seu plano e depois de alguns dias,
toda a estratégia estava minuciosamente desenhada em sua mente.
- Alberto é esquisito, quietão, mas é gente boa, incapaz de causar mal a alguém. Tadinho dele!
- O cara não pega mulher! Na verdade corre de mulher! Já vi ele ficar
sozinho com uma menina quando estudávamos juntos e ele ficou vermelho,
suava frio e sem mais nem menos saiu correndo de perto dela... e olha
que a mina nem estava afim dele.
- Não tem jeito! O cara vai morrer virgem!
Deitado em sua cama, com os olhos estalados, fixos no teto, Alberto
conseguia ouvir palavra por palavra todos os comentários que faziam
sobre ele na cidade, ou pelo menos acreditava com toda certeza que
caçoavam pelas costas: Alberto, o magrelão, meio quilo, bambuzão,
esquisitão...
Um pequeno sorriso porém, acalmou Alberto enquanto continuava olhando fixamente o teto de seu quarto.
Era inverno e Alberto comprou uma mochila com o pretexto de levar mais
uma blusa para o trabalho, e todo dia parava por alguns instantes em
frente a loja de seu patrão, observava que no fundo havia um terreno
baldio com um muro não muito alto, ao lado existia outro
estabelecimento comercial e os proprietários moravam no andar de cima.
O dia de maior movimento era no fim de semana e aquela próxima sexta-feira seria o dia D.
Murilo apareceu naquela semana, conversou um pouco com Alberto sobre
futebol, trabalho, contou sobre a última festa, onde conheceu e acabou
levando uma garota mais velha para um motel...
Alberto ouvia, mas estava distante, observava o carro de Murilo estacionado na rua.
- Você já pegou muitas mulheres com esse carro?
Alberto fez a pergunta, interrompendo Murilo que falava de outra coisa.
- Ah! Se esse carro falasse, teria mil histórias picantes para contar!
Gabava-se Murilo de suas infindáveis aventuras amorosas.
Alberto sorriu, e analisando cada centímetro do automóvel se imaginava
atrás daquele volante com as mais diferentes mulheres ao seu lado.
Atrás daquele volante conseguiu se ver mais forte, mais bonito e mais
seguro.
Seu horário de trabalho era das vinte horas até as quatro da manhã, mas
naquela sexta-feira chegou por volta das dezoito horas na loja de
malhas.
- Pediram para eu verificar o estoque de um modelo que estamos tecendo.
A balconista nada disse, apenas balançou a cabeça consentindo, enfurecida por estar na hora de fechar e ir embora.
Alberto entrou na loja e saiu por um corredor que dava para uma escada de acesso ao estoque de blusas no segundo andar.
Subiu as escadas e entrou num labirinto de prateleiras repletas de
blusas. No interior da sala havia uma pequena veneziana, Alberto
apanhou a chave do cadeado que ficava pendurado na parede ao lado da
janela e destrancou o cadeado, deixando a veneziana apenas encostada.
Analisou todo o lugar e continuou observando toda a loja quando desceu
e passou em frente o escritório de seu patrão onde havia uma câmera de
segurança direcionada para a porta. Existiam outras câmeras e Alberto
memorizou o posicionamento de cada uma. Algum tempo depois, saiu da
loja e voltou para casa. Retornando ao trabalho às vinte horas.
Durante toda noite Alberto imaginava passo a passo a ação que estava prestes a cometer, o trabalho ficou em segundo plano.
Às quatro horas da manhã, as ruas estavam desertas como de costume e uma forte neblina pairava sobre a cidade. Era perfeito.
Com certeza que não havia uma alma acordada naquele local, Alberto
seguiu até o terreno baldio e com muita facilidade pulou o muro para o
fundo da loja. Subiu um outro muro que ficava no nível da veneziana que
havia deixado aberta. Conseguiu abrir a janela esticando os braços e
com um impulso se jogou para dentro.
Rapidamente fechou a veneziana. Apanhou uma lanterna em sua mochila e
com muito cuidado atravessou a sala de estoque até a escada. Sabia que
pelo posicionamento das câmeras de segurança teria que ter cautela por
onde passava. Ao chegar próximo da porta do escritório, tirou sua
camiseta e encostado na parede em baixo da câmera, atirou a camiseta
sobre a lente sem muita dificuldade, nessa hora percebeu uma vantagem
em ter sua estatura.
Retirou da mochila um pequeno pé-de-cabra e com muito cuidado para não
fazer muito barulho forçou a porta até que a fechadura se quebrasse e a
porta abrisse.
Seu plano estava dando certo. Alberto sorria a cada passo bem sucedido
de sua estratégia, mas não contava com um pequeno detalhe.
Abriu a gaveta da mesa do computador e só encontrou papéis, contas, cartas... na escrivaninha também só havia documentos.
Começou a ficar desesperado, revirou todo fichário e nada de dinheiro
ou qualquer coisa de valor. Procurou por algum cofre, mas não tinha
nada. O escritório ficou todo revirado, com o chão forrado de papéis.
Existia uma estante com uma gaveta fechada a chave. Alberto conseguiu
arrombar com o pé-de-cabra, entretanto, não havia dinheiro e sim um
talão de cheques, já era alguma coisa, colocou o talão no bolso, quando
ouviu um barulho do lado de fora da loja. Olhou pelo corredor e avistou
luzes que vinham da rua.
Ficou estático, não havia planejado nada para aquela situação. Seu
coração disparou e tinha a sensação que a cidade inteira ouvia seus
batimentos.
Em alguns minutos, apavorado e sem sentidos, Alberto tem um relance de consciência e percebe o que estava fazendo.
Em alguns minutos se vê em um escritório de uma loja durante a madrugada procurando dinheiro para roubar.
Começou a soluçar e seus olhos marejavam, teria que sair dali
rapidamente. Colocou a cabeça para fora da porta, se corresse para a
escada poderia voltar pelo estoque, pular a janela e sair na loja
vizinha, se fosse bastante rápido, ninguém o veria.
Mas quando deu alguns passos na direção da escada, trombou com um
policial de arma em punho ordenando que deitasse no chão com as mãos na
cabeça.
Alberto obedeceu pois não tinha o que fazer senão encostar o nariz no chão frio, que ficou molhado por seu choro.
Perplexidade. Absolutamente todos queriam saber o por que de um rapaz
sério, íntegro e bondoso como Alberto ter feito o que fez. Até quem não
o conhecia direito ou deu muita importância para o sujeito quietão e
esquisito ficou curioso.
Contudo, a perplexidade e a curiosidade não duraram o mesmo tempo que
Alberto ficou na cadeia. Logo nem lembravam dele, assim como sempre
havia sido.
Passou-se cerca de oito meses e Alberto foi solto.
Após alguns dias, estava andando pelas ruas, olhar sério e cabeça
erguida. Chegou a um bar. Durante todo trajeto de sua casa ao bar,
várias pessoas olhavam o rapaz com certo espanto e receio.
Alguns conhecidos do colégio chegaram ao bar e logo foram conversar com ele.
- Se não é meu velho amigo Alberto!
Com olhar fixo em seu copo de cerveja, dando uma tragada num cigarro reponde secamente:
- Seu velho amigo Alberto não existe mais. Quero que me chame de Magrelo.
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