O francês Voltaire foi um dos maiores filósofos da humanidade, que combateu com sua arma, a pena, a tirania da igreja e as injustiças dos reis e políticos de sua época. Em livros de filosofia da atualidade costuma-se dizer que Voltaire ficou ofuscado pela luneta do tempo porque suas lutas contra a superstição e o excesso de zelo religioso não nos interessam tanto quanto a geografia ou a economia do atual momento, por exemplo. Em uma de suas peças, Micromégas, Voltaire conta uma história onde a Terra é visitada por um habitante da estrela Sirius; ele tem cerca de cem quilômetros de altura. Ao caminhar pelo Mediterrâneo o siriense molha os calcanhares. Enquanto está no mar ele apanha um navio como quem pega uma pequena formiguinha e coloca sobre a unha do polegar, provocando grande agitação entre os passageiros humanos. Os capelães do navio repetiam exorcismos, os marinheiros praguejavam. O siriense se curva e dirige a eles:
“Ó átomos inteligentes, nos quais o Ser Supremo houve por bem manifestar sua onisciência e seu poder, não há duvidas de que seus prazeres na Terra devem ser puros e requintados; pois livres da matéria e sendo pouco mais do que a alma, devem passar a vida nas delícias do prazer e da reflexão, em parte alguma encontrei a verdadeira felicidade, mas sem dúvida é aqui que ela mora!”
Um dos filósofos que estava no navio responde:
“Temos matéria suficiente para praticarmos o mal em abundância, deveis saber, por exemplo, que neste exato momento, enquanto falo, existem cem mil animais de nossa espécie cobertos com chapéus, matando um igual número de semelhantes que usam turbantes; pelo menos, estão matando ou sendo mortos e tem sido assim por toda a Terra desde tempos imemoráveis”.
O Siriense indignado ameaçou dar dois ou três passos e acabar com toda
a ninhada de seres humanos do planeta. Mas o filosofo replicou:
“Não vos deis a esse trabalho, eles tem competência suficiente para
conseguirem a própria destruição, além disso, o castigo não deve ser
aplicado a eles, mas aos bárbaros sedentários e indolentes que, de seus
palácios, dão ordens para o assassinato de milhões de homens e depois
solenemente, agradecem a Deus pelo sucesso!”.
Esse texto foi escrito na primeira metade do século XVIII, e está mais atual do que nunca.
Deus é usado desde que o mundo é mundo para justificar as barbaridades
cometidas contra o próprio ser humano. A manipulação de Deus, o uso
dessa palavra tão fácil de se pronunciar, que cabe em qualquer papel,
ou discurso nunca foi tão explorado como nos dias de hoje.
Mas afinal, quantos Deuses existem?
O Muçulmano diz que crê em Deus. O Judeu diz que crê em Deus. O
católico diz que crê em Deus. O Protestante diz que crê em Deus.
Mas que Deus? Será que estão falando da mesma “pessoa”?
O próprio Deus deve estar olhando para toda essa carnificina promovida
em Seu Nome e deve estar se perguntando: Estão falando de Mim? Eu sou
esse Deus que tanto falam para poderem cometer atentados? Para contra
atacarem friamente se considerando o bem que luta contra o mal e não
importando se quem também morre e foge pode ser um inocente que pensa,
se assusta, sofre? Será que tudo o que tentei ensinar para os homens
entrou por um ouvido e saiu pelo outro?
Uma coisa é certa, enquanto políticos e religiosos de todo o mundo, de
todas as religiões do mundo estiverem usando o nome de Deus em causa
própria, estiverem matando seus irmãos pela incompreensão e
intolerância, e proclamando aos quatro cantos: “Eu sou salvo! Deus está
comigo! Só a minha religião salva!”, quem vai estar rindo à toa e
esperando seus discípulos é o próprio Demônio, o jogador que mexe suas
peças nesse jogo chamado fanatismo religioso.
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