Inicial
Rodrigo
Poemas
Crônicas
Contos
Textos Teatrais
Fotos
Contato
Links
Área restrita
Mais vale o torresmo E-mail
Por Rodrigo Alves de Carvalho   
30 de September de 2009
Image

Eduardinho afogou com a garfada de arroz com ovo. Ficou roxo o coitado do Eduardinho enquanto tossia sem parar tentando soltar os grãos de arroz que entrara pelo canal do nariz. Seu pai continuava comendo seu arroz e nem deu atenção ao rapazola afogando. Sua mãe levantou-se e segurando os braços deu um forte soco nas costas de Eduardinho que cuspiu o arroz para longe, formando uma pequena massa branca com gosma de cuspe.
E seu pai continuava comendo o arroz seco e esquentado que havia sobrado do almoço de ontem.
A pequena Gabriela brincava com a boneca careca. Fazia de conta que a boneca havia se afogado com arroz e dava fortes socos nas costas da boneca. Eduardinho não viu a boneca cuspir o arroz para longe, porque boneca não cospe arroz, muito menos se afoga, mas Gabriela viu o arroz voar para longe da boca da boneca formando uma massa branca com gosma de cuspe de boneca careca. Só ela viu.

A mesa estava repleta de arroz que caia dos pratos de Eduardinho, de seu pai, de sua mãe e da pequena Gabriela. A família reunida comia e ao mesmo tempo derramava arroz para fora dos pratos.
A mãe de Eduardinho varria toda a sobra do arroz e amontoava num cantinho da mesa, depois jogava tudo numa tigela para dar ao porquinho de estimação de Gabriela, que na verdade não era mais um porquinho e sim um grande e não muito gordo porcão que vivia no quarto da menina, que na verdade não era um porco, era uma porca. Mesmo assim a menina de oito anos gostava muito da porca que vivia em seu quarto.
A porca não era muito gorda, porque não comia muito, já que não sobrava muita coisa dos almoços e jantares da família de Eduardinho.
O pai de Gabriela também gostava da porca e a tratava bem. Tratava melhor a porca do que Eduardinho. Sabia que a porca logo proporcionaria uma bela porção de torresmo no almoço e carne de porco na janta e Eduardinho não proporcionaria nada mais que uma boca para comer o torresmo.
A mãe de Gabriela gostava da porca, mas tinha pena do bicho. Havia se apegado muito ao suíno e sabia que um dia a porca teria que ser sacrificada para a família não passar fome.
A porca, mesmo morando no quarto de Gabriela, gostava muito de Eduardinho, seguia Eduardinho pelos cantos da vila onde moravam, era a companheira inseparável do rapazola. Chegava a ter ciúmes de quem se aproximava ou conversava com ele.
Já chegou a correr atrás de uma namorada de Eduardinho. Foi tudo muito rápido, o rapaz levou a menina, devia ter 16 anos, era magrela e com os seios ainda em formação, mas tinha um fogo tremendo. Ficava enchendo o saco do Eduardinho todo dia com brincadeirinhas maliciosas e gestos convidativos. Eduardinho não queria nada com a menina, pois nem seios ela tinha ainda. O problema foi que de tanto ignorar a assanhada, um dia ela o chamou de veado. Isso foi o cúmulo. Naquela mesma noite o rapaz carregou a menina para trás do muro da escolinha primária da vila. Tirou a roupa da magrelinha e a colocou com as mãos no muro de costas para ele. Já era mais de onze horas da noite, fazia um relativo silêncio no local do ato. Mas a menina começou a gemer e a bater com os punhos no muro. Com o êxtase dos movimentos frenéticos que Eduardinho não titubeava em proporcionar, a menina começou a berrar, berrava cada vez mais alto.
Seus berros chegaram até a pequena casinha com teto de Brasilit de Eduardinho e acordou a porca que dormia ao lado de Gabriela. Mais que depressa a suína saiu em disparada e chegou ao local da ação, onde flagrou as duas pessoas com as calças arreadas. A menina levou um incomensurável susto, o rapaz reconheceu a porca e tentou toca-la, mas a bichinha avançou sem dó e piedade para cima da magrela, que saiu em disparada e esqueceu até a calcinha pendurada num vergalhão do muro da escola.
Eduardinho, furioso com a porca, desejou sua morte, desejou vê-la boiando numa grande panela com banha fervente.
Porém a fúria logo passou, a porca era manhosa e com muito jeito fez o rapaz esquecer do acontecido e gostar dela novamente.
Quem não esqueceu do acontecido foi a magrela. A menina contagiada por um ódio sem extremos, decidiu vingar-se da porca: matando-a.
Matar uma porca é meio complicado, dizem que ao matarmos um porco não podemos ficar com pena do bicho senão ele não morre. Mas com a raiva que estava, a magrela não teria dificuldades em executar a porca que dormia inocentemente naquele dia fatídico.
O fato relatado a seguir foi extraído do Boletim de Ocorrência da Polícia Militar do estado de Minas Gerais no dia 28 de novembro de 2001:
“Por volta das duas horas e trinta minutos do dia 28 de novembro de dois mil e um, a autora, V. P., 16 anos, branca, com um metro e sessenta e dois centímetros de altura e cinqüenta quilos de peso, trajando calça jeans e camiseta preta, adentrou à casa de Edelvan F. Graciosi onde com uma faca com 20 centímetros de lâmina desferiu cerca de 20 estocadas na vítima, uma porca de cor escura, pesando aproximadamente 52 quilos de peso, que morreu no local. Segundo testemunhas, a autora pulou a janela do quarto da filha do senhor Edelvan e com a mão direita desferiu 15 estocadas e com a mão esquerda cerca de 5 estocadas. A vizinhança toda acordou com os gritos da porca e um dos vizinhos solicitou a presença da Polícia que compareceu ao local do crime e lavrou o B.O. que agora será encaminhado para o delegado da cidade para que sejam tomadas as futuras providências”.
A magrela foi presa no dia seguinte e ficou detida na delegacia da cidade.
O pai de Eduardinho afirma não ter escutado nada durante aquela noite, não tomou atitude alguma sobre o fato. A mãe de Eduardinho perguntou à menina o por quê e não obteve resposta alguma.
Eduardinho sentiu falta da porca por oito horas e quarenta e dois minutos, depois disso conheceu uma menina gorduchinha e esqueceu da porca.
A única pessoa que sentiu muito pela morte da porca foi Gabriela, havia perdido uma grande amiga, as duas eram bastante ligadas, a ponto de dormirem juntas.
Gabriela se lembrou da porca e chorou sua morte até a hora da janta, quando comeu costela de porco assado e torresminho pururuca.



Comentários (2)
Comentários em RSS
05-10-2009 00:50
ESQUISITO, MAS BEM LEGAL!
MARIA DE LOUDES
19-01-2010 12:59
TORRESMO
;) A NECESSIDADE FAZ O HOMEM, ARROZ ESQUENTADO NINGUÉM MERECE! MAS QUE TORRESMO, AQUELE DO BOTECO COPO SUJO É UMA MARAVILHA, COM CERTEZA!
Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo

Escrever comentário
  • Por favor, o assunto do seu comentário precisa ser relevante ao assunto do artigo.
  • Ataques pessoais serão deletados.
  • Por favor, não use os comentário para fazer propaganda de seu site ou será deletado.
Nome:
E-mail
Homepage
Título:
BBCode:Web AddressEmail AddressBold TextItalic TextUnderlined TextQuoteCodeOpen ListList ItemClose List
Comentário:



Código:* Code
Quero ser contactado por e-mail avisando sobre comentários

Powered by AkoComment Tweaked Special Edition v.1.4.6
AkoComment © Copyright 2004 by Arthur Konze - www.mamboportal.com
All right reserved

 
< Anterior   Próximo >
Últimos artigos
+ lidos
Comentários
A gastrite e o sal de frutas
Gastrite
:zzz Amei essa crõnica, realmente é como o cara diz: o bolo ...
30/08/10 10:22 Leia mais...

A gastrite e o sal de frutas
gastrite
Eu nao tenho ++meu cachorrinho sim e estou tratando com agua...
29/08/10 18:35 Leia mais...

A gastrite e o sal de frutas
gastrite
não tinha mais hoje dia 22 de julho apareceu uma dor um azia...
22/07/10 17:42 Leia mais...

Por que espirramos quando olha...
entendi tudo ¬¬
10/06/10 16:07 Leia mais...

A Porta e a Sessão Coruja
sufoco
já tive sonhos assim, tentava correr de alguem e não consegu...
08/06/10 18:41 Leia mais...