Talvez não me conheça mais
Talvez eu tenha ficado parado
Num tempo distante e passado
E de minhas entranhas tenha surgido
Um outro eu.
Talvez segui minha vida tateando a covardia
Talvez não seja covardia e sim, medo.
Passei a me julgar como se eu fosse um personagem.
Mas esse personagem se tornou monótono e doente.
É certo que minha consciência se partiu entre os dois de mim
Um ficou estático, olhando o outro caminhar com seus passos trêmulos.
E o que andou conseguiu conquistar algumas coisas
Mas perdeu muito da vida que o outro poderia ganhar.
A consciência dói, arrepende-se, mutila-se por ter se calado
Por ter aceitado passivamente a progressão do eu personagem
Por assistir um eu sistemático, moralista e performático
Por ver a si mesmo se denegrindo aos olhos dos outros.
O eu que ficou no passado quer retornar.
Agora conciliando as conquistas do eu moralista
Mas sem moralismos hipócritas e sem graça.
A fusão se dará com passos apressados.
Porque muito tempo já foi perdido.