 Morar com os pais tem sempre o lado bom. Não precisar cozinhar, não precisar lavar as próprias roupas e principalmente, não precisar arrumar a cama.
Para Pedro essa era a melhor parte.
Tudo porque havia uma certa rixa entre Pedro e sua cama, mais precisamente, seu lençol.
Podia estar a cama muito bem arrumada, era só o rapaz deitar na cama e o lençol escorregava para fora. Se bem que Pedro nunca se deu ao trabalho de puxar o lençol antes de dormir, tinha preguiça de tal ato. Até porque toda vez que se dirigia à bendita quadrúpede, era somente para dormir.
Sua mãe não cansava de se queixar. Não entendia o por que do lençol
estar todo dia ao lado da cama e o rapazola esticado sem nada para
separá-lo do colchão.
As broncas da mãe fizeram com que Pedro ficasse preocupado. Afinal de
contas de cada 190 milhões de brasileiros, apenas ele tinha esse
problema.
Procurou um psicólogo, o renomado doutor Ary Fontana Milano, formado na PUC Campinas.
Doutor Ary ouvia atentamente aos relatos do rapaz.
- Doutor, acho que meu lençol possui alguma rejeição por mim. Não posso
conviver com isso o resto da vida. Imagine o senhor, se fosse sua
mulher e toda noite ela escorregasse para fora da cama? Isso poderia
deteriorar seu matrimônio, causando danos irrecuperáveis na relação.
Doutor Ary, renomado nome dentro da Psicologia mundial, se abalou
profundamente. Realmente esse era um caso a ser estudado. Não o caso de
Pedro, mas o por que de sua mulher estar todo dia de manhã caída ao
lado da cama. Talvez houvesse essa rejeição, talvez os corpos que
outrora se atraiam com o calor do amor, agora se repeliam. Seria isso
falta de amor. Seria incompatibilidade de corpos?
Pedro não conseguiu se curar. A doença continuava e o lençol também continuava escorregando para fora da cama toda noite.
Alternativas existiam, sua mãe, solidária como todas as mães. Comprou
lençóis novos, daqueles com elásticos nas bordas para prenderem no
colchão. Parecia que o problema estava resolvido. Mas na primeira noite
de sono de Pedro, em meio a um sonho fantástico com Carla. A musa
inspiradora de suas músicas. Já que Pedro era também músico.
Desconhecido é bem verdade. Carla aparecia numa festa Rave, linda com
seu jeans rasgado e mini blusa reciclada. O batom de Carla era
magnífico, negro como seus olhos. Pedro desejava borrar todo aquele
batom em seus lábios, seria um beijo fenomenal, um beijo excepcional,
um beijo explosivo. E foi. Mas um mosquito da dengue se aproximava,
afinal num sonho existem essas misturas surrealistas. O mosquito da
dengue pousa sobre seu rosto, prepara seu enorme ferrão para lhe chupar
o sangue. Pedro acorda assustado com um vermelhão no rosto, estava
ardendo. Mas não era o mosquito da dengue que fizera um apetitoso
banquete de sangue, era o elástico do lençol que havia desprendido e
atingido seu rosto. Percebeu que o lençol já estava totalmente no chão.
Houve mais quatro tentativas de usar o lençol com elástico nas bordas, mas foram em vão.
Pedro começou a se desesperar, precisava dar um jeito nessa situação,
começava a se sentir excluído no mundo, não por seus pais e nem por
seus amigos, mas pelos lençóis da vida.
Numa loja de móveis da cidade, o rapaz comprou uma cama nova. Estava
contente por achar ter resolvido o problema, pensava que a rejeição não
era do lençol para com ele e sim do lençol para com a cama.
A cama nova era espetacular, de aço tubular, forjada por ferreiros tradicionais de Andradas-
MG, uma maravilha do mundo moderno em se tratando de camas.
Deitou todo animado na noite de estréia da cama nova, demorou até para
pegar no sono, sonhou com Carla novamente, mas dessa vez não conseguiu
beija-la.
Infelizmente de manhã, Pedro acordou com o choro de sua mãe ao lado da
cama. Mexeu sobre o colchão para sentir a maciez do lençol e não sentiu
nada. O lençol estava todo esparramado pelo chão.
Desesperado Pedro saiu de casa, vagou pela cidade buscando explicações.
Não se conformava com sua sina. Não entendia tal infelicidade.
Sentou-se num banco de uma praça e acabou pegando no sono em meio aos prantos.
Já era noite quando decidiu voltar para casa, passou perto da escola
onde os alunos noturnos ficavam esperando o sinal de entrada. Sentada
num banco junto com as amigas estava Carla.
Ela, ao avistar o rapaz, vai ao seu encontro.
- Pedro! Por que essa tristeza?
- É meu lençol, estou com um grande problema com ele.
A menina se solidariza na hora.
- Mas qual é o problema com seu lençol?
- Ele não me aceita mais.
Pedro conta toda sua triste história para a menina. Ela resolve prestar ajuda ao desesperado amigo e vai com ele até sua casa.
Em seu quarto ficam frente a frente com a cama. O lençol estava meticulosamente arrumado sobre a cama, obra de sua mãe.
Carla senta-se na cama, alisa o lençol sobre o colchão.
- Há quanto tempo você está com esse problema?
- Faz muito tempo, só que eu nunca percebi essa aversão do lençol para comigo.
- Quer dizer que você sempre dormiu sem o lençol, já que ele sempre escorregava
para fora da cama?
- De certa forma sim.
- Então, já que você sempre dormiu sem o lençol, porque não esquece dele?
O rapaz pensou seriamente sobre isso. Poderia viver muito bem sem a
presença do lençol, já que durante toda a vida dormiu sem ele.
Carla puxou o lençol da cama deixando apenas o colchão.
- Esqueça o lençol. Você pode muito bem dormir sem ele.
Pedro concordou na hora, afinal de contas o que era um simples lençol para quem nunca precisou dele?
Depois desse dia e dessa revelação os laços entre Pedro e Carla se
tornaram mais forte. Pouco tempo depois os dois estavam namorando.
Pedro percebeu como é magnífico o destino, pois havia perdido o lençol, mas ganhado uma namorada.
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