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Por Rodrigo Alves de Carvalho
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07 de December de 2008 |
A irresistível tentação de cheirar o fio dental depois de limpar os dentes foi que me fez abraçar a profissão de dentista.
Hoje sou respeitado no meio da odontologia, mas confesso que essa minha pequena “tara”, poderia por em cheque minhas atitudes profissionais e até acabar com minha carreira.
Que culpa tenho de gostar de cheirar o fio dental depois de limpar os dentes?
Comecei desde pequenino, quando cutucava o dente com a ponta de palito de fósforo e depois levava ao nariz. Sei que o cheiro pode não ser agradável para as pessoas, porém, para mim, era como um pedaço de mim, algo passado, que estava preso a mim. Um pedaço de carne, resto de comida que havia almoçado e estava presente ainda em minha boca. Não dá para explicar, só cheirando para descrever o que sentia.
Minha primeira experiência com o fio dental de outra pessoa foi num
churrasco na casa de meus primos. Éramos adolescentes e fervia em mim
os hormônios da sexualidade. Tatiana era a menina de meus sonhos da
época, uma loirinha de cabelos cacheados que infelizmente namorava um
idiota da cidade.
Ao ver a doce loirinha limpando seus dentinhos com
o fio dental e depois colocando delicadamente na lixeira da cozinha não
tive dúvidas. Discretamente apanhei o fio e fui para trás da casa para
contemplar aquele momento mágico e cheirar toda a extensão por onde
seus dentes foram meticulosamente massageados.
Desse episódio para
outros tantos em festas e churrascos foi um pulo. Já que nesses eventos
quase sempre não se serve fio dental para a higiene bucal, eu mesmo me
encarregava de levar minha caixinha e oferecer à todas as meninas com
sujeirinhas entre os dentes. Logo depois eu mesmo me encarregava de
jogar o fio no lixo. Puro pretexto para poder dar a minha cheiradinha
viciante.
Após a formatura do segundo grau, procurei imediatamente
uma faculdade de odontologia onde fui o primeiro colocado no vestibular.
Minha fascinação por dentes e principalmente pela limpeza, ou melhor,
pelo resto da limpeza bucal fizeram-me logo o mais aplicado e melhor
aluno da faculdade.
Com o diploma na mão, minha obsessão por fios
dentais aumentaram ainda mais. Agora estaria habilitado a cheirar todo
e qualquer fio dental usado pelas minhas pacientes sem ser perturbado e
sem ser condenado por isso.
Hoje sou um profissional realizado,
tenho um nome forte na odontologia, muitos pacientes e principalmente
muitas pacientes. Tenho um carinho especial por todas elas. Quando o
tratamento acaba, sinto como se um relacionamento também acabasse. Mas
outras pacientes chegam e novamente me sinto renovado por poder em cada
consulta limpar, nem que seja apenas um único dente e logo depois
cheirar o fio dental, sentir meu pequeno “baratinho” que anima minha
vida e me faz prosseguir na carreira.
Sei que muitas pacientes ainda
estarão em meu consultório, a gama de cheirinhos é imensa. Vou dessa
forma experimentando novos odores, novas formas de me realizar
pessoalmente e profissionalmente.
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