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O Ladrão que queria ser preso E-mail
Por Rodrigo Alves de Carvalho   
29 de July de 2009
O Ladrão que queria ser preso
(comédia em 4 atos)

                            Por Rodrigo Alves de Carvalho
                   

Personagens:
Almir Farinha - Deputado federal
Samuel Soledade - Deputado Federal amigo de Farinha
Iolanda – Esposa do deputado Almir Farinha
Fidêncio – Assessor particular de Almir Farinha
Maria – Empregada da casa de Almir Farinha
A Repórter
O Cinegrafista
Clodomiro – Amante de Iolanda
Ladrão
Policial 1
Policial 2

Primeiro Ato

Sala da casa do deputado Almir Farinha.

Deputado Almir Farinha está sentado numa mesa tomando seu café da manhã.
Entra o deputado Samuel Soledade.

Farinha – Nobre colega deputado Samuel Soledade! Quanta honra recebe-lo em minha humilde mansão com doze quartos, cinco suítes, piscina, sauna e oito carros na garagem!

Samuel Soledade  – O prazer é todo meu nobre colega deputado Almir Farinha!

Farinha – Não! O prazer é meu! Afinal de contas estamos em minha casa. E como você é o convidado, o prazer em recebê-lo só pode ser de minha parte!

Samuel Soledade – Tudo bem nobre deputado! Então não tenho prazer nenhum em estar em sua casa! O prazer é somente seu.

Farinha – Mas vamos nos sentar! Tenha a honra de tomar o café da manhã em minha presença. 

Samuel Soledade senta-se.

Samuel Soledade – Caro deputado! Já tomei meu café da manhã.

Farinha – Não faça essa desfeita meu amigo. Já que se sentou comigo, vai ter que comer alguma coisa.

Samuel Soledade – Estou sem fome deputado!

Farinha (gritando) – Come!

Samuel Soledade (assustado) – Olha só! De uma hora para outra me deu uma vontade de comer uma fatia de melancia!

 
Farinha grita para o assessor.

Farinha – Fidêncio!

Entra Fidêncio.

Farinha – Fidêncio traz um pedaço de melancia pro nobre colega Samuel!

Fidêncio – Sim senhor magnânimo senhor!

Vai em direção da cozinha. No caminho pára e volta.

Fidêncio – Vossa Excelência... o senhor comeu todas as melancias... não pode ser um pedaço de melão?

Farinha – Melão não! Se estou querendo melancia, quero que traga melancia. Se eu quisesse melão, teria pedido melão!

Fidêncio (conturbado) – Melancia... melancia...

Fidêncio sai de cena.

Samuel – Se não tiver melancia, pode ser um pedaço de melão mesmo.

Farinha – Você prefere um pedaço de melancia ou um pedaço de melão?

Samuel – Acho melhor um pedaço de melão, é mais leve.

Farinha grita para Fidêncio.

Farinha – Fidêncio!

Entra Fidêncio apressado com o pedaço de melancia, colocando em cima da mesa apressado.

Farinha – Por que essa demora Fidêncio? Você está me decepcionando na frente de meu colega deputado.

Fidêncio – Desculpe minha majestade. É que não tinha melancia e eu fui pedir um pedaço no vizinho.

Farinha – Mas quem é que vai comer melancia Fidêncio? Cadê o melão Fidêncio?

Fidêncio – Melão? Mas minha senhoria não queria comer melancia?

Farinha – Quero melão! Meu colega deputado quer melão. Traga já esse bendito melão Fidêncio!

Fidêncio saindo apressado levando a melancia.

Fidêncio – Sim senhor minha santidade. Vou trazer o melão.

Farinha para Samuel:

Farinha – Assessores bons são raros hoje em dia. A gente precisa ter muita paciência... precisa ensinar, escovar todo dia, levar no veterinário...

Samuel – Nobre deputado. O senhor ainda não me disse por que me convidou para esse café da manhã?

Farinha – Tenho uma novidade para contar meu caro amigo. Uma novidade bombástica!

Samuel – Que novidade é está nobre colega?

Farinha – Vou contar depois de tomarmos um bom golinho de café. O senhor aceita um café?

Samuel – Um cafezinho é sempre bom. Ainda mais ansioso do jeito que estou com essa novidade bombástica que o senhor vai me revelar.

Fidêncio entra com o melão.

Fidêncio – Meu senhor. Está aqui o melão.

Farinha – Não queremos melão Fidêncio! Traga um cafezinho pra gente. Vai anda logo!

Sai Fidêncio.

Samuel – Me conte nobre deputado. Que notícia tem para me dar?

Farinha se levanta.

Farinha – Pois bem! Já faz alguns anos que me sinto um tanto quanto injuriado com essa minha vida de parlamentar... sabe como é... ir para Brasília toda semana... estudar projetos que a gente nunca vota... sentar naquela cadeira e não fazer nada...

Samuel – E o que tem isso de mais? Todos nós deputados não fazemos nada mesmo! Vai me dizer que o senhor pretende...

Farinha (assustado) – O quê?

Samuel – Trabalhar?!

Samuel aproxima-se de Farinha.

Farinha (se benzendo) – Deus me livre! Vire essa boca para lá! Isola!
(bate três vezes na mesa)

Samuel –  Se o senhor não pretende trabalhar, o que vai fazer para sair dessa depressão?

Farinha (pensativo) – Vai ser muito bom caro colega.

Entra Fidêncio com os cafés.

Fidêncio – O café está servido.

Farinha – Depois Fidêncio! Agora estamos conversando, não está vendo?

Fidêncio – Desculpe magnânimo.

Fidêncio se senta numa cadeira e prepara para comer um pedaço de bolo.

Farinha – Então comece a trabalhar Fidêncio! Vai ficar aí parado sem fazer nada? Vamos se mexa homem!

Fidêncio apanha um caderno e uma caneta e anota tudo o que o deputado Farinha fala.

Samuel (impaciente) – Vai caro nobre colega deputado! Me diz as novidades!

Farinha – Estou pensando numa coisa que acho especial para mim. O senhor nem imagina o que pode ser.

Samuel (alegre) – Até que enfim se decidiu candidatar-se para o Senado! Sempre te disse que seu lugar era no Senado!

Farinha – Que Senado? Não é nada disso! Não quero me candidatar ao Senado ou qualquer outro cargo.

Samuel (ao pé do ouvido) – Nem ao governo do estado?

Farinha – Muito menos ao governo do estado.

Samuel – Então me diga de uma vez o que pode ser melhor do que o Senado ou o governo do estado!

Farinha (levanta as mãos e fala com gosto) – Estou pensando em ser preso!

Samuel – Em ser o quê?!

Farinha – Preso! P. R. E. S. O.

Samuel – Como assim preso caro colega?!

Farinha – Como assim preso?! Preso. Cadeia. Xadrez. Xilindró. Atrás das grades...

Samuel (rindo) – Desculpe minha linguagem. Mas o senhor está louco!

Farinha – Louco por quê?

Samuel - O senhor nunca vai ser preso meu nobre deputado.

Farinha (indignado) – Por que não? O que foi que eu fiz de errado para não ser preso?

Samuel – Esqueceu que um deputado nunca vai preso? Até parece que não conhece seu oficio!

Farinha – Mas eu também tenho o direito de ser preso. Todo mundo vai preso.

Samuel – O senhor é um deputado. E deputados não vão para a cadeia. Esqueceu?

Farinha – Isso é uma injustiça!

Fidêncio (levanta o dedo) – Injustiça!

Samuel – Você já viu algum político se dando mal neste país, meu nobre amigo?

Farinha (pensativo) – Não.

Samuel – Pode esquecer esse seu sonho ridículo de ser preso, pense em outra coisa... por exemplo, um projeto de lei para aumentar nossos salários...

Farinha – Só que eu já tenho tudo preparado. Bolei uma forma infalível para ser preso. Tenho certeza que qualquer tribunal vai me condenar. Está tudo aqui, na minha cabeça.

Samuel – Que formula é essa? Que motivo poderia te condenar?

Farinha – Vou roubar a previdência!

Samuel (rindo) – Previdência?! Justamente a Previdência? O caro colega não sabe que todos os anos nós roubamos a previdência e até hoje nenhum de nós fomos presos? Até a Jorgina roubou e está numa boa.

Farinha – Não fale assim de minha ídola! Olha como fala da Jorgina e do Lalau. Eles são sagrados para mim. Tenho até pôsteres dos dois em meu quarto.

Samuel – Eles podem até ser sagrados e indiscutivelmente ídolos... Mas nenhum dos dois pagaram pelo que fizeram. O Lalau coitado ficava preso uns dias e a justiça soltava, depois prendiam de novo e a justiça corria atrás e soltava novamente, no final de tudo, cadeia que é bom o Lalau viu pouco... O que o nobre colega vai fazer para superá-los? ... não tem como o senhor ser preso.

Farinha – Mas vou dar um desfalque monumental! Vou roubar tanto que os aposentados e pensionistas irão ficar mais de um ano sem receber um tostão. Vou colocar todo esse dinheiro em minha conta particular aqui mesmo no Brasil. Depois vou comprar mansões, fazendas, carros importados, e acima de tudo... não vou declarar nada disso ao imposto de renda e terei questão de dizer na imprensa que roubei, que sou ladrão, que não presto...

Samuel – Não sei não nobre colega. Será que vai conseguir ser preso com isso? Olha lá, até hoje ninguém foi preso, ainda mais um deputado.

Fidêncio (intrometendo na conversa) – Mas meu patrão é esperto, é astuto, é inteligente, é magnânimo...

Farinha – Cala a boca Fidêncio! Olha só minha testa! Está escorrendo suor. Vamos Fidêncio faça alguma coisa!

Fidêncio apanha um lenço do bolso e fica limpando o rosto do deputado Farinha.

Samuel – E a cadeia deputado? Como será na cadeia? Já pensou nisso?

Farinha – Uma beleza! Televisão a cabo, hidromassagem, Vinho italiano, Champagne francês, caviar... tudo o que existe de melhor no sistema penitenciário brasileiro para os presos com curso superior! Sempre soube que meu diploma na faculdade de turismo iria servir para alguma coisa.

Samuel – Quero só ver a reação do Congresso! O que irão pensar sobre isso? Um deputado de renome internacional como o senhor, cotado até ao governo do estado... preso numa cadeia... atrás das celas...

Farinha – se eu conseguir realizar esse meu sonho... eles vão morrer de inveja!

Samuel – O senhor vai se transformar numa espécie de deus para eles. Vai ser o ídolo dos deputados federais e estaduais. Quadros com a sua foto estarão presentes em cada Gabinete. O senhor será muito mais respeitado.

Farinha (modesto e emocionado) – Deixo claro para meu nobre colega que não faço isso pensando em auto-reconhecimento... longe disso... não quero ser famoso, só quero ter o incomensurável prazer de ser o primeiro deputado a ir definitivamente para a cadeia!

Samuel – Até eu me sinto emocionado só de pensar... Ai meu Deus que inveja!!!

Farinha (abraçando Samuel) – Nobre amigo! Não fique assim... quem sabe numa outra oportunidade você também consiga ir para a cadeia...

Samuel – Desejo toda sorte a você meu caro colega amigo deputado!

Fidêncio está emocionado limpando uma lágrima com seu lenço.
Farinha – Vou te acompanhar até a porta, meu caro colega.

Samuel sai.

Farinha volta e vê Fidêncio amuado e triste.

Farinha – O que foi agora Fidêncio? Por que você está com essa cara de eleitor engano?

Fidêncio (choramingando) – É que... se o senhor for preso! Como é que eu Fico? ... irei ficar perdido? Perambulando pelos cantos sem ouvir sua benéfica voz? Serei um perdido no mundo sem poder fazer suas vontades? Sem ouvir seus gritos me chamando de incompetente, sem poder limpar seu suor? Sem escovar seus dentes, pentear seu cabelo, fazer cafuné para o senhor dormir à noite?

Farinha – É claro que não Fidêncio! Se eu conseguir realizar meu sonho e ir para a cadeia... prometo que te levarei junto comigo.

Fidêncio (Ajoelhando e beijando os pés de Farinha) – Como o senhor é tão bondoso comigo! Obrigado minha magnânima, minha majestade. Prometo ser um presidiário à altura do senhor! Prometo limpar sua cela todo dia, passar antiferrugem nas grades... prometo cantar para o senhor quando estiver tristonho...

Farinha – Que nada Fidêncio! Na cadeia não tem dessas coisas. A cadeia é só relax!... Agora vamos compactuar... vamos bolar minha estratégia para roubar a previdência... vamos compactuar Fidêncio!

Fidêncio (pensativo) – E a sua esposa meu nobre senhor? Como é que sua esposa vai receber a notícia? Ela pode ficar desesperada.

Farinha – Tem razão Fidêncio! Preciso preparar a Iolanda. Talvez ela não entenda que o melhor para mim pode ser ruim para ela.

Fidêncio – Como assim magnânimo?

Farinha – Ora Fidêncio, se eu for para a cadeia, Iolanda vai ficar sem meus carinhos à noite, e você sabe como é a Iolanda...

Fidêncio – Sei?!

Farinha – Ela é uma santa, esposa digna, compreensiva, amável, carinhosa...

Entra Iolanda juntamente com a empregada Maria.

Iolanda (aos berros) – Bando de incompetentes! Sanguessugas de madames!

Farinha – O que foi amorzinho? Por que esse nervosismo docinho?

Farinha – Cale a boca marido imprestável! Estou com uma enxaqueca dos diabos, não quero ouvir sua voz!

Farinha para a empregada.

Farinha – O que aconteceu Maria? Por que minha lindinha está alterada desse jeito?

Maria – É que nós fomos ao shopping e tinha acabado de acabar as unhas postiças amarelas, e as unhas postiças pretas eram mais caras que as amarelas.

Iolanda – Mais caras não Maria! Eram o dobro do preço das unhas amarelas. Onde já se viu? Não posso nem andar com as unhas bem arrumadas que já metem a faca. Só porque meu imprestável marido é deputado federal.

Farinha – mas Florzinha, dinheiro não é problema para nós. Se é dinheiro que precisa, basta me pedir... sabe que te dou tudo o que pede.

Maria (sarcástica) – Então poderia me dar um aumento. Faz dois anos que vocês não reajustam o meu salário.

Farinha – Já disse que já entrei com um projeto na câmara para aumentar os salários das empregadas de deputados. Só que não vamos poder votar enquanto não discutirmos o aumento do salário dos senadores, dos assessores dos senadores, dos assessores dos assessores dos senadores, dos governadores, dos vereadores, dos prefeitos, dos deputados...

Maria – Mas vocês votam aumentos para vocês mesmos quase todo mês e a gente tem que esperar mais de dois anos?

Farinha – Maria, me responda uma coisa. Você é deputada?

Maria – não.

Farinha – você foi eleita pelo voto de meu amável povo brasileiro?

Maria – não.

Farinha – você por acaso tem poderes acima das outras pessoas?

Maria – não.

Farinha (nervoso) – Então vai já pra cozinha cuidar de suas obrigações, sua... sua... empregada doméstica!

Maria (enfrentando) – o senhor não manda em mim! Vou confessar uma coisa, aqui e agora.

Farinha – o que é, povinho?

Maria – Eu não votei no senhoooor!

Farinha (vai corre atrás de Maria) – sua ingrata! Só podia ser uma assalariada mesmo. Não tem o cacife de um homem como eu... um deputado...

Iolanda – acabaram com essa guerrinha de classes? Podemos conversar sério agora marido imprestável?

Farinha – é claro meu docinho de marmelada.

Iolanda – encontrei com aquele seu comparsa, o deputado Samuel Soledade, no portão de casa e ele disse que você tem uma surpresa para me contar. O que é... vai se candidatar ao governo do estado?

Farinha – É melhor que isso minha pérola. É uma decisão que tomei... só não sei se você vai gostar.

Iolanda – Hoje em dia tudo o que você faz eu não gosto. Vai diz logo o que vai fazer dessa vez!

Farinha – Vou ser preso!

Iolanda – Como é que é?

Farinha – Calma meu caramelozinho, eu explico... não precisa se desesperar... pretendo ser preso, é um sonho que tenho desde pequenino.

Iolanda – Você vai ser preso? Não acredito.

Farinha – mas acredite, pela primeira vez neste país um deputado vai ser preso... e o melhor de tudo é que esse deputado é o seu maridinho querido.

Iolanda vai até a frente do palco, fica pensativa.

Iolanda – Meu marido preso... eu sozinha nesta casa... meu marido trancafiado numa cadeia... eu em minha solidão...

Iolanda começa a chorar.

Iolanda – não! O que vai ser de mim? Uma esposa solitária numa mansão de luxo, entregue à dor de perder o marido!

Farinha consola a esposa.

Farinha – não é bem assim meu cajuzinho! Você vai poder me visitar todo dia... vou criar um projeto de lei de urgência urgentíssima na câmara  para determinar visitas intimas todos os dias. Só para a gente se encontrar.

Iolanda (complacente) – meu amor! Se este é o seu sonho... não vou me desesperar, você sabe que sempre quis o melhor para você.

Farinha abraça Iolanda.

Farinha – Sabia que meu docinho de coco iria compreender. Você é a melhor esposa que um homem poderia pedir a Deus!

Iolanda – então vá meu amor! Realize o seu sonho! Sua alegria será também a minha alegria!

Farinha – Como te amo, meu amor.

Se olham e Farinha grita.

Farinha – Fidêncio!

Entra Fidêncio apressado.

Fidêncio – Sim senhor minha magnânima senhoria!

Farinha – vamos compactuar Fidêncio! Vamos compactuar!

Farinha e Fidêncio saem de cena. Fica Iolanda, triste na frente do palco com a mão sobre o rosto.

Iolanda retira as mãos do rosto aos poucos e em seu rosto está um enorme sorriso.

Iolanda (grita) – Maria!

Entra Maria apressada.

Maria – o que é que foi agora madama?

Iolanda – arrume as malas de meu marido. Ele vai ficar um bom tempo longe desta casa.

Maria – O doutor Farinha vai viajar?

Iolanda – É melhor que isso Maria, meu marido vai ser preso!

Maria – pegaram o homem?!

Iolanda – não poderia ter melhor notícia!

Maria – Não mesmo!

Iolanda – vai Maria! Coloque todas as roupas de meu marido nas malas. Vamos deixar tudo pronto para o encarceramento! Eu vou ligar para as minhas amigas! Preciso contar as novidades... elas vão ficar morrendo de inveja...

Saem Maria e Iolanda de cena.


                    Fecham-se as cortinas.

                    Fim do primeiro ato.

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Privadíase E-mail
Por Rodrigo Alves de Carvalho   
29 de July de 2009
Privadíase

                (Comédia da privada em três atos)

Por Rodrigo Alves de Carvalho

Personagens:

Carlos Quirini -        Pai da família Quirini.
Fátima -                     Esposa de Carlos.
Júnior -                      Filho do casal (pré- adolescente).
Andréia -                   Filha do casal (adolescente).
Dona Serafina -       Sogra de Carlos, mãe de Fátima.
Cidinha -                   Empregada da casa de Carlos.
Geraldão -                Gordo sobrinho de Serafina.
Gato -(Pessoa fantasiada) Bicho de estimação de Andréia.
Padre.
2 pessoas -             Transportadores da privada.


                1º Ato:

                Cenário:

No palco divisão no meio, de um lado a sala da casa, (onde deve haver um quadro na parede, sofás etc.), e do outro a porta do banheiro, a porta do banheiro estará aberta, e lá dentro será visível o chuveiro, a pia,  o espelho, etc., menos a privada. Haverá apenas o local onde ela deve ser colocada.

Fátima e Júnior entram em cena, ambos preocupados

Júnior - Mãe, porque o papai está demorando tanto? Ele saiu de manhã e até agora não voltou!

Fátima - Ah! Júnior, não é tão simples assim! Hoje em dia as coisas devem ser estudadas meticulosamente para não cometermos besteiras.

Júnior - Mas depois de tanto estudo! E fui eu quem sentiu na pele esse estudo, vocês fizeram tanta economia pra reformar a casa fizeram tantos cálculos e eu fiquei sem a minha mesada!

Fátima (pensativa) - você ficou sem sua mesada e eu fiquei sem minha manicure, sem minha cabeleireira toda semana!... mas no final tudo vai dar certo,  você vai ver...essa reforma na casa vai ficar uma beleza!

Júnior - Que graça tem uma casa que não tem banheiro?

Fátima - Como não tem banheiro? Olha o banheiro ali meu filho! Será que você precisa usar óculos?

Júnior - De que adianta um banheiro novo com uma pia nova, um chuveiro novo, o azulejo novo, se o essencial não tem, de que adianta um banheiro sem privada?

Fátima (pensativa) - Mas a privada é o essencial de uma casa, uma casa sem uma bela privada, é como um nariz sem meleca, um domingo sem macarronada.

Júnior - A senhora esqueceu de dizer que é como um filho sem mesada!

Fátima - Meu querido você precisa enxergar longe, precisa ver o que é melhor, pensando bem... você ficaria bonitinho de óculos! Irão achar que sou mãe de um intelectual...

Júnior - E onde é que um intelectual vai fazer xixi?

Fátima (pensativa) - Vou ser  mãe de um intelectual... que orgulho...

Júnior (nervoso) - Mãe!!!

Fátima - O que foi Eistein?

Júnior - Onde é que eu vou fazer xixi?

Fátima - Meu filho você se preocupa com coisas tão supérfluas.

Júnior - Supérfluas? A senhora acha que ficar sem fazer xixi é uma coisa supérflua? Então diga isso pra minha bexiga, explica pra ela que isso é supérfluo.

Fátima - Calma filhinho acredite na força da mente. É só dizer ao seu eu interior... não tenho vontade de ir ao banheiro... não tenho vontade de ir ao banheiro... e pronto, a vontade vai embora.

Júnior - (fazendo força) - Não quero ir ao banheiro... não quero ir ao banheiro.... aí! Me arrumem um banheiro pelo amor de Deus! Onde é que eu vou fazer xixi!!!

            Entra Cidinha toda apressada:

Cidinha (gritando) - Vai mijar lá no vizinho! Não é isso que todo mundo nessa casa faz há mais de 2 meses?

Fátima - Não fale mal de nossos vizinhos Cidinha! Eles foram tão solidários com a gente, ofereceram seus banheiros de livre e espontânea vontade!

Cidinha: - Espontânea vontade?!  Também com a sujeira que vocês estavam fazendo no quintal, não havia cristo que agüentava o mau cheiro!

Fátima - O quintal é nosso e a gente faz o que quer nele! Principalmente as nossas necessidades.

Cidinha - Mas pelo menos podia jogar uma terra em cima das suas necessidades... Mas não; ficava tudo espalhado pelo chão (nojo) Arg!  Que nojo!!! 
 
Fátima (filosofando) - Nojo? Por quê? Se as necessidades eram da gente... saíram de dentro da gente... fizeram parte da gente.... são como filhos que parimos todos os dias, como poemas que escrevemos quando nossas mentes estão inspiradas! Nossas necessidades fisiológicas são como... pequenas obras de arte!

Cidinha - Obras de arte? Eu não sabia que uma parte de mim era um artista!

Fátima - Todos nós possuímos um pouco de artistas em nós.

Júnior - Não vejo a hora do papai comprar essa privada. Não sei porque tanta frescura pra comprar uma coisa dessas!

Cidinha -  Isso é verdade...por acaso vocês vão comprar uma privada de ouro?

Fátima - Primeiramente não se diz privada. Se diz vaso sanitário, e em segundo lugar nossa família merece o que existe de melhor.

Cidinha - Ah! Então por acaso a privada, quero dizer, o vaso sanitário vai ser pra vocês... pensei que era para as suas necessidades... se bem que você acabou de dizer que sua necessidade faz parte de você...

Fátima -  Olha como você fala Cidinha! Por acaso está fazendo pouco caso de mim?

Júnior (sarcástico) - Da senhora não. Mas das  suas necessidades!!! Bom deixa eu ir no vizinho fazer um pouquinho de arte plásticas e cuidar das minhas alegres necessidades!

                Júnior sai de cena.

Fátima -  Vai podem gozar a vontade de mim, mas depois do banheiro prontinho vocês vão engolir o que estão falando agora... e você sua encalhada, vai ver com quantos azulejos se faz um sanitário...

Cidinha -  Melhor ser solteira esperando pelo meu príncipe, do que ficar esperando por um banheiro , até parece que vai ser o melhor banheiro do mundo!!!

Fátima -  Do mundo não!... E sim... do universo!  Eu sinto isso... existe alguma coisa no ar que me diz isso...

Cidinha (menção de fedor no ar) - deve ter sido o Júnior, o garoto é o maior porco... coitado do vizinho que vai ter que agüentar esse fedor no banheiro por no mínimo 2 horas...

Fátima- Mas ele disse que queria fazer xixi?

Cidinha - Vai ver ele aproveitou para fazer o serviço completo.

    Entra Andréia:

Andréia - Mãe, mãe me dá dinheiro pra eu ir pro shopping!

Fátima -  Dinheiro...dinheiro... até parece que seu pai é sócio da casa da moeda, você só pensa nisso minha filha?

Cidinha -  Só nisso não! ela pensa no Afonsinho, no Carlos André, no...

Andréia -  Fica quieta Cidinha!!! Se não quer me ajudar não me esculacha!

Cidinha (sarcástica)  - Ah! sou eu quem te esculacha né?  Não foi isso o que fiquei sabendo... lembra do Luís Rogério? Que esculacho!!!

Andréia (raivosa) - Cala a boca Cidinha!!!

Fátima (não compreendendo) - O que vocês estão falando? O que é esse negócio de escumaxo... escunaxo...?

Cidinha - Es - cu - la - xo...

Andréia (raivosa) – Ca- la –a- bo- ca!!!

Cidinha – Já- es -tou –qui-e -ta.

Fátima - Ah filhinha, com essa mania de shopping você estava gastando muito dinheiro... todo   dia você quer dinheiro? Assim não dá!

Andréia - Mas o papai não me dá mais mesada já faz 2 semanas!

Fátima - Pelos meus cálculos...  sua mesada já foi adiantada por no mínimo uns... 37 anos...

Andréia (bem fresca) - O Júnior ainda tem mesada! Ele pode, por que é o queridinho do papai, é o homem da casa... Pô mãe será que vocês não vêem que eu também existo, que penso, que respiro, que preciso me vestir com uma calça da Fórum? Com uma camiseta da Fatto, com um tênis Nike importado?

Fátima - Você merece isso e muito mais minha filha... mas agora a prioridade é o banheiro novo, já está acabando, falta pouco, esses dois meses valeram a pena !

Andréia - Mas tem que valer a pena mesmo! Não agüento mais usar o banheiro do vizinho, e aquele menino, o filho do vizinho, aquele pivete fica me encarando, acho até que tenta me espiar pelo buraco da fechadura.

Cidinha - Que mal gosto do moleque!

Fátima (indignada): Minha filha! Isso que você está dizendo é muito grave! Você? Uma menina sem maldades nenhuma?

Cidinha: (Sarcástica) - Ah! Nenhuma maldade! Faça-me rir...

Andréia: Olha aqui, encalhada, pelo menos não preciso ficar imaginando um homem pra mim. Não preciso ficar recortando fotos de atores da televisão! Pensa que eu não sei? Pensa que eu não vi as fotos do Humberto Martins, do Victor Fazano, e até do Vampeta pe- la- dão?

Cidinha: Andréinha do meu coração, é melhor ficar guardando fotos desses gatinhos do que ser tratada como uma qualquerzinha!


            Andréia enfurecida parte pra cima de Cidinha.

Andréia: Escuta aqui, sua empregadinha metida a besta, se olha no espelho, depois vem conversar comigo! ouviu bem? Afinal eu sou a sua superior e exijo respeito!!!

Fátima: - Mas o que está acontecendo com vocês duas?  Será que vou ter que contar sobre suas discussões ao Carlos? Olha minha filha aí é que você nunca mais vai ter mesada! E você Cidinha, vai ficar sem seu emprego!

Cidinha - Olha dona Fátima tenho muita consideração pela senhora, mas não vou aturar que essa aí fale mal do meu Vampetinha.

Andréia (fresca) - Dobre sua língua, tenha respeito pela sua superior... empregadinha!

                Entra Dona Serafina:

Serafina: - Meu Cristinho!... mas que barulhada é essa aqui na sala? Será que uma velha como eu , esquecida pela previdência, não pode mais descansar nessa casa?

Fátima: Desculpe mamãe é apenas mais uma briguinha dessas duas, a senhora sabe como elas são.

Andréia - Foi a cidinha quem começou!!!

Serafina: (filosofando) - Minhas crianças... a briga não leva a nada, nada é mais simples do que a vida harmoniosa dentro de uma casa. Se bem que eu nunca perdi uma luta do maguila... ah! Que direita!!!

Cidinha: Dona Serafina, sou fã da senhora, cada palavra bonita!

Andréia: - Ah Vó! não liga não, essa aí se entusiasma por qualquer besteira.

Serafina: Palavras são ditas e logo voam pelos ventos, e somente as pessoas com os ouvidos da compreensão conseguem as captar e as guardar para si mesmo, as pessoas de pouca inteligência não conseguem compreender os significados das palavras.

Fátima: - Ora mamãe, é melhor a senhora ir descansar de novo, não está dizendo coisa com coisa... eu não estou entendo nada...

Serafina: - É minha filha... melhor eu deixar vocês falarem suas próprias palavras...

Cidinha (abraçando dona Serafina) - Dona Serafina, a senhora acha que só porque estou me guardando para meu príncipe encantado, eu vou ser uma encalhada para sempre?

Serafina - Não minha filha, quando eu tinha a sua idade, também pensava no meu príncipe encantado... Naquela época tínhamos um medo terrível da Guerra... Mas num dia comprei uma camisola de seda com detalhes de linho, e aí consegui dormir melhor, sem aquela dor de cabeça maldita.

Andréia - Mas o que isso tem a ver com príncipe encantado?

Serafina - Que príncipe?  não estávamos falando em corridas de cavalos?

Fátima - Vai mamãe, vai descansar um pouco, a senhora está muito estressada.

Serafina (saindo) - Só se meu estresse for de ficar o dia inteiro contando as moscas que voam por  cima de minha cama.

            Serafina sai de cena.

Fátima: - Aoitada de sua avó, está ficando esclerosada... é a idade...

Cidinha: - Pra mim ela é a mais lúcida dessa casa.

Andréia (desafiando): - Pra você é mesmo, pois você e ela se compreendem, são duas desmioladas...

    Júnior entra correndo com algumas penas de pássaros nas mãos:

Júnior: Mãe, a senhora não sabe o que acabou de acontecer o nosso bichano acabou de comer o canarinho premiado do papai. Só achei as penas do coitado!

Fátima: - Mais essa agora? Já falei pra vocês darem um fim nesse gato maldito, seu pai... Ai ! Seu pai vai ficar uma fera, não quero nem ver!

Andréia (saindo): - Eu não fiz nada, não quero saber de encrenca pro meu lado!

Júnior - Peraí, alto lá, o gato é seu! Agora vai tirar o seu da reta é?

Andréia - Acabei de renegar o gatinho, pode pegar pra você!


                Sai Andréia.

Cidinha (saindo): - Sou somente uma empregada dedicada e não me meto em assuntos familiares, me dêem licença que tenho uma faxina pra fazer!

Júnior - Agora ela faz até faxina pra não ver a coisa preta. É impressionante!!!

                Sai Cidinha.

Fátima: Vai Júnior agora é sua vez de inventar uma desculpa para não arcar com as conseqüências.

Júnior: Eeeee! O gato nem é meu, o gato é da Andréia, se fosse meu há muito tempo, quando a gente morava no apartamento eu já teria feito minhas experiências cientificas com ele. Mas minha irmã não deixou, dizendo que o gato era dela. Ela que se vire agora!

Fátima: - Experiências cientificas? Querer fazer o gatinho cair com as quatro patas do quinto andar de um edifício? Isso é uma experiência cientifica?

Júnior: - Ora mãe, Newton não descobriu a força de atração dos corpos quando uma maça caiu em sua cabeça? Pois bem, eu iria descobrir alguma força observando o gato cair lá de cima!

Fátima: - Só se for a força de um miado de desespero do pobre gato! Ah meu filho você só pensa em porcarias mesmo! ... E por falar em porcarias... eu acho que vou fazer uma visita ao vizinho! Volto logo!

Júnior - Quem diria, até a senhora? Bom pelo jeito o negócio aqui em casa vai esquentar quando o papai chegar, e eu quero só dar risada.

Sai Fátima. Júnior permanece em cena, entra o gato e vai em direção ao pote com água.

Júnior: - Olha o gatinho do papai, tá com sedinha tá...

        Júnior vai em direção ao gato, com um ar maligno.

Júnior: - Vem cá gatinho, vem pro papai...
   
O gato fica parado, miando de alegria. Júnior apanha uma moeda no bolso.

Júnior (para o gato): - Espera  um  pouquinho  que  eu  vou   buscar  o  super   bonder,  (mostrando a moeda para o gato) nessa minha nova experiência cientifica, vou verificar quanto tempo você agüenta sem ir ao banheiro, ou melhor sem ir à sua caixinha de areia.

            Andréia entra em cena

Andréia (surpreendendo Júnior) - Parado aí seu pirralho, não coloque a mão no meu gatinho.

        Chama o gato.

Andréia - Vem bichano, vem comigo vem!

Júnior - Agora o gato é seu, não é? mas pra encarar o papai você não assume a maternidade do gato!

Andréia -  Que culpa eu tenho se o meu gatinho lindinho comeu aquele monstro que era o canarinho do papai? Se é da natureza dos gatos comerem os canários, eu não tenho culpa!

Júnior (sarcástico) - É da natureza dos gatos comerem os canários, assim como é da natureza das irmãs pedirem clemência para não apanharem de um pai furioso.

Andréia (amorosa) - Ah Juninho, meu irmãozinho favorito, você não vai deixar nosso pai bater na sua irmãzinha querida, vai?

Júnior - Não quero saber, você vai levar uma sova do papai, e eu quero assistir de camarote!

Andréia (enfurecida) - Escuta aqui pirralho! Se alguém vai levar uma sova esse alguém é você!!!

Andréia corre atrás de Júnior, este tira um sarro da cara da irmã.

Júnior - Vem gorda, vem me pegar! Vem !

Andréia - Ah! Se eu te pegar garoto! Você vai se arrepender de ter nascido!

Entra dona Serafina e corre com dificuldades atrás dos netos para acalmá-los :

Serafina - Parem ! parem com isso já! Que coisa mais feia! Dois irmãos, sangue do mesmo sangue brigando feito dois gladiadores!

Júnior ( pára de repente) - Gladi... o quê?

Serafina - Gladiadores... homens que só pensavam em briga, suas vidas se resumiam em brigas, duelos, violência!

Júnior - Que legal! Taí eu quero ser um gladiador quando crescer!

Andréia (para júnior) - Pirralho!  você não tem nem tamanho de gente, tá mais pra ser um maquinista de Ferrorama do que gladiador!
(para Serafina)     Vózinha do meu coração, a senhora não sabe a catástrofe que acabou de acontecer em casa !

Serafina - O que? O vizinho lacrou o banheiro?

Andréia - Pior que isso, meu gatinho lindinho do coração, acabou de comer o canarinho preferido do papai, e agora a culpa vai cair toda em cima de mim! Só porque fui tão generosa e com bom coração que acolhi o pobre bichano que vivia jogado pela rua, miando aos quatros ventos, precisando de carinho e proteção, Ah! Minha vó me ajude nesse momento tão delicado de minha vida!

Júnior - Que nada vó! O gato é dela , ela que se vire!

Serafina - Olhe meus netos, vou dizer algumas palavras que irão abrir o coração de vocês. Sentem-se aqui.

            Andréia e júnior sentam-se no sofá.     

 Serafina - Há muito tempo atrás, na época que meu falecido marido; o avô de vocês, ainda era vivo, aconteceu um episódio parecido com esse, naquele tempo, é claro, não existia tantos edifícios como hoje e nem caixinha de areia onde os gatos fazem suas necessidades, naquela época, os gatos faziam suas necessidades no quintal, e depois jogavam terra por cima, vocês precisavam ver que belezinha...

Andréia (entediada) - Que legal vó, mas infelizmente depois eu ouço o resto da história, já vi que vou ter que inventar uma desculpa descomunal para não apanhar de meu pai hoje!

            Sai Andréia.

Serafina (para Júnior) – Bom, continuando a história, a 2ª guerra estava deixando todas as mulheres nessa cidade angustiadas...

Júnior - Peraí vó, a senhora não estava falando do gatinho?

Serafina - Gatinho? Que gatinho? Eu estava falando era sobre os concursos de Miss Brasil que acontecia todo ano, Ah! Como era lindo, como eu tinha vontade de participar...

Júnior (saindo) - Olha vó, parece que ouvi alguém me chamar, deve ser meus amigos, eu marquei de ir jogar bola agora, depois a senhora continua falando sobre a Miss que foi pra guerra e encontrou um gatinho com uma metralhadora amarrada no cauda, tá bom?

                 Sai Júnior.

Serafina-  Gatinho com uma metralhadora? Acho que esse moleque está ficando tã tã da cabeça.... Ah! Como sinto falta do falecido, somente ele me compreendia, mas depois de tanto tempo de solidão, sinto como se faltasse alguma coisa pra mim, sinto falta do amor, o amor que ha muito tempo foi embora de meu velho coração aposentado.

        Entra Cidinha, passando o espanador nos móveis.

Cidinha - Dona Serafina, a senhora está falando sozinha?

Serafina - Estou pensando no passado minha filha,  aquele bom tempo que não volta mais...

Cidinha (para e se aproxima) - Devia ser bom naquele tempo né, os homens eram galanteadores, as mocinhas ingênuas...a senhora mesmo devia ser uma garotinha ingênua quando se casou não era?

Serafina - É verdade, eu tremia tanto na nossa lua de mel, suava feito uma condenada, não sabia onde colocar a mão.

Cidinha (sarcástica) - Mas aprendeu rapidinho não é?

Serafina - Mais respeito comigo menina, eu sirvo pra ser sua avó!

Cidinha - Por sorte sua! Do jeito que as coisas andam comigo, quando eu tiver a sua idade, nem filhos eu vou ter, acho que vou ter que me contentar em ser titia!

Serafina - Mas por que essa falta de amor próprio, você é tão boazinha, tão bonitinha!

Cidinha - Bonitinha? Bonitinha é uma feinha simpática! Acho que nunca alguém vai se interessar por mim!

Serafina - Mas você nunca teve um namorado em sua vida? Nunca deu um beijinho?

Cidinha - Olha dona Serafina, beijar eu já beijei, deixa eu lembrar... Quer ver só... teve... peraí, esse não... mas aquele, não mãe e pai não contam!... Quer saber dona Serafina, na verdade nunca dei um beijinho sequer na minha vida! Nem mesmo em defunto!

Serafina - Mas não se desespere minha filha, um dia o seu príncipe encantado vai aparecer, nem que seja um príncipe de outro planeta, mas, vai aparecer!

    Entra Fátima, ajeitando a roupa e furiosa.

Fátima -  Vocês nem queiram saber, mas acabei de quebrar o pau com o vizinho, não agüentei tamanho desaforo e soltei os verbos em cima dele!

Cidinha - Calma dona Fátima! O que foi que seus adoráveis vizinhos fizeram?

Fátima - Aqueles maus intencionados, vizinhos dos demônios... disseram que só poderemos usar o banheiro deles novamente se pagarmos um pedágio antes de entrar! Isso é um absurdo! pedágio é o cúmulo dos cúmulos! Eles pensam que são o que? Ah! Carlos precisa saber disso! Ele vai quebrar a cara daquele vizinho maldito, tanto tempo de bom relacionamento, nunca fizemos nada para eles!

Cidinha - Só entupiram a privada deles umas três vezes!

Fátima - Mas o Carlos vai saber e vai tomar providências, eu não quero nem saber!

                Entra Júnior:

Júnior - Por que essa gritaria toda, quem foi que morreu?

Fátima -  Não morreu ninguém! Mas depois que eu contar para o seu pai, alguém vai morar debaixo da terra!

Júnior - O que ? A senhora agora arrumou um tatu de estimação?

Cidinha - Já me basta um gato pra dar trabalho! Nem me venham com outro bicho, porque no final sobra pra mim! Quem acaba limpando a sujeira sou eu!

Serafina - Sorte a minha que eu ainda tenho o  meu penico velho de guerra, não preciso ficar entrando na casa dos outros.

Júnior - Vó, tira uma curiosidade minha. Onde é que a senhora joga as... bom... as suas coisas que ficam dentro do penico?

Cidinha - Só eu sei Júnior... só eu sei, e é bom você não querer saber...

Serafina -  Esse segredo é só nosso heim Cidinha?!
 
Cidinha -  Nosso e do verdureiro.

Júnior  (confuso) -  verdureiro?

Fátima - Mas tudo bem, seu pai vai chegar daqui a pouco, e quem sabe ele já encontrou o que tanto nos faz falta. Eu sinto que as coisas vão mudar!

Serafina - Falando no diabo, olha quem chegou.

Entra Carlos com um ar de bobo, olhando a família sem dizer nada.

Fátima - Querido? Querido o que foi? Por que essa cara?

Júnior (apressado) - Pai a culpada é a Andréia, desce o cassete na minha irmã, desce o cassete!

    Carlos permanece com os olhos fixos num ponto qualquer.
            A família fica preocupada.

Cidinha - Com essa cara ele só pode ter sido assaltado!

Fátima (aflita) - Você foi assaltado querido? Eles levaram muito dinheiro, levaram nosso carro? Ah eu sabia que hoje em dia não estamos mais protegidos nem mesmo em nossa casa. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde algum de nós seria assaltado ... bom pelo menos não fui eu!... mas mesmo assim, eles roubaram os cartões de crédito? O talão de cheque? A minha foto onde estou só de biquini pra você?

Júnior - Que nada mãe, com essa cara o papai deve ter avistado a maior gatinha, uma gostosona turbinada.

Fátima (raivosa) - O que! você sai pra ir comprar algo de necessário para a nossa casa e fica se enrabichando com qualquerzinha pela rua. Ah! Seu Carlos Quirini, se o senhor se encontrou com qualquer mulherzinha por aí, pode saber que eu quero o desquite! Não sou mulher de carregar chifres no meio da testa!

            Fátima bate em Carlos mas ele permanece parado.

Fátima (quase chorando) - Como você pode, depois de tantos anos de casados? Jogar tudo fora por causa de uma mulherzinha da vida!!!

Serafina - Espera filha! Esse aí não tem capacidade de conquistar ninguém, você foi a primeira e a única que teve piedade dele. No máximo o que aconteceu, foi que a vontade de ir no banheiro foi tanta que não agüentou e fez nas calças mesmo, olha só a cara de cagado!

Fátima (compreensiva) - Por que não me disse logo Carlinhos do meu coração, não conseguiu agüentar é, pode deixar que eu vou dar um banhinho em você! Você merece isso e muito mais, se eu pudesse lhe daria o mundo, pelo maravilhoso marido que você é!

            Carlos quebra o silêncio:

Carlos - Eu encontrei... ela estava lá... bela, elegante, chique, me seduzia a todo segundo... me deixava sem ar pra respirar, meu coração batia mais forte a cada vez que seu brilho chegava em meus olhos, confesso que me conquistou e... eu a comprei...

            Entra Andréia correndo e gritando:

Andréia - Ela chegou! Ela chegou!!

Todos param para ver. Dois homens da transportadora entram carregando a privada, que está com as bordas com papel para proteger contra batidas.

Fátima (alucinada) - Mas é tão linda! Nunca imaginei existir tanta beleza!

Carlos (abraçando a esposa) - Não é linda? E imaginar que perdemos  tanto tempo sem essa maravilha do nosso lado!

        Andréia e Júnior se aproximam e ficam maravilhados com a privada, Cidinha e Serafina sorridentes observam de longe.

A privada é colocada no centro do palco e a família se reúne em torno dela.

Fátima - mas ela está tão tímida, não é querido?

Carlos - É assim mesmo, mas espere só até instalarmos no nosso banheiro novo!

Júnior -  Pai apresenta a gente pra ela!

 Carlos (apresentando –os para a privada) - Esse aqui é meu filho Júnior, essa é minha filha Andréia, essa é minha mulher Fátima, aquela é a empregada Cidinha, e aquela outra com cara de cachorro com furúnculo é minha sogra Serafina.

                Desce a cortina.
       
                Fim do primeiro ato.

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