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O Magrelo E-mail
Por Rodrigo Alves de Carvalho   
05 de March de 2010
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- Se eu ganhasse cinco quilos já estaria bom!
Alberto apertava os ossos de sua costela em frente ao espelho enquanto pensava que alguns quilos poderiam esconder a quantidade de ossos que saltavam de seu corpo, principalmente quando aspirava o ar com toda força de seu pulmão.
Estava com 20 anos, e para maior desespero, era muito alto, tinha um pouco mais de um metro e noventa, mas nunca conseguiu chegar aos setenta quilos.
Tentou vários métodos que os amigos lhe aconselharam como tomar dois litros de leite por dia (o que lhe causou uma diarréia que fez emagrecer ainda mais), comeu três barras grandes de chocolate (e a diarréia lhe atacou novamente, sem contar que seu rosto pareceu um chuchu de tanta espinha), tomou inúmeros abridores de apetite, vitaminas, supercalóricos etc, mas quando subia na balança: sessenta e oito quilos.
Seu complexo aumentava ainda mais, ao ver seus amigos, altos ou baixos com o peso na medida certa, alguns mais gordinhos que outros, porém, o pior de tudo e o que mais acabava com a estima de Alberto, era ver que todos tinham ou tiveram um namorico, uma ficada ou até alguma paquera pendente.
- E o magrelo nunca deu um beijo em sua vida. Vinte anos e nem um selinho sequer...
Quase não saia de casa, após terminar o colegial arrumou um emprego noturno em uma confecção. Preferia o horário noturno pois quase ninguém via andando pelas ruas na ida ou na volta do trabalho.

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Voltaire Voltou E-mail
Por Rodrigo Alves de Carvalho   
22 de January de 2009
François-Marie Arouet. Daquele dia em diante esse seria seu nome. E seria chamado e conhecido por todos vulgarmente como Voltaire.
Voltaire o grande, Voltaire o gênio, Voltaire o magnífico... qualquer adjetivo estava bom para aquele homem.
Na verdade, seu nome era Sebastião Conceição da Silva. Não era grande, pois não passava de um metro e sessenta de estatura; não era gênio, podemos dizer que era inteligente, mas não chegava a ser gênio e muito menos podia esperar ser magnífico, pretensão demais é a ruína até dos mais pretensiosos.
Devorador de livros na pequena e apertada biblioteca municipal de Parísia – sudeste de Minas Gerais, cidade com cerca de 10 mil habitantes, bastante ligada às tradições e costumes católicos, todos os meses se comemorava algum santo, e sempre era festa na igreja Matriz de Santo Antônio. Matriz porque era a única igreja da cidade, lugar onde todos se encontravam aos sábados e domingos nas missas, palco dos namoricos no largo da igreja após a missa das 19 horas do sábado. Parísia não tinha clube, não tinha discotecas, não tinha bares, só uma igreja. Uma igreja e um bordel é claro.

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Miserialismo E-mail
Por Rodrigo Alves de Carvalho   
22 de January de 2009
Os fios de cabelo entrelaçados no pente, arrancados um a um. Era um ato mecânico, puxar cada fio, desprender dos dentes marrom e joga-los no ralo da pia do banheiro.
Contou.
32 fios de cabelo. Eustáquio guardou o pente no armarinho, assoou o nariz. Puxou o catarro do peito e cuspiu.
Dirigiu-se ao quarto e sentou-se numa cadeira ao lado da cama. Fechou os olhos e dormiu.
Sonhou que estava numa velha casa. O reboco da sala estava caindo, com o polegar tentava segurar o reboco. Amassava a areia forçando o polegar. Com o outro polegar sobre o que estava na parede, ele forçava ainda mais. A parede começou a ruir. O cimento foi se esborrachando no chão e aos poucos foi caindo. Um estrondo fez com a parede caísse por completo, ficando apenas o telhado e um monte de concreto pelo chão.
No dia seguinte acordou do mesmo jeito que dormira: sentado.
O café amargo e frio engolido como se fosse uma bola de linha, enroscava na garganta. Escoava pingo a pingo uma água suja do dia anterior no ralo entupido da cozinha e os pratos sujos de molho e restos de macarrão instantâneo boiavam junto aos copos e talheres.

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